TdH Brasil lança cartilha com metodologia para grupos reflexivos com adolescentes autores de violência sexual

Instituto Terre des Hommes Brasil (TdH Brasil) lança a Cartilha sobre Grupos Reflexivos com Adolescentes Autores de Abuso Sexual, publicação elaborada no âmbito do Projeto “Elos de Proteção”. O material sistematiza uma metodologia voltada à responsabilização de adolescentes que praticaram violência sexual, à reflexão crítica sobre suas condutas e à prevenção da reincidência.

A proposta parte do entendimento de que a resposta à violência sexual não deve se limitar à punição. A metodologia busca criar espaços de reflexão nos quais os adolescentes possam reconhecer as consequências de seus atos, questionar comportamentos relacionados à violência e construir outras formas de se relacionar.

Segundo Renato Pedrosa, presidente de TdH Brasil, a cartilha representa uma primeira sistematização da experiência desenvolvida pelo Projeto “Elos de Proteção” e um ponto de partida para o aprimoramento da metodologia.

“A cartilha convida profissionais a revisitar, ampliar e aprimorar suas práticas, explorando abordagens que ultrapassem os modelos tradicionais”, explica. O documento é destinado principalmente a profissionais do Sistema de Garantia de Direitos, equipes técnicas, educadores, facilitadores e instituições que atuam na proteção de crianças e adolescentes.

Responsabilização sem estigmatização

Um dos princípios centrais da metodologia é não reduzir o adolescente ao ato infracional cometido. A cartilha evita rótulos como “abusador” ou “estuprador” e considera que o jovem está em processo de desenvolvimento e pode transformar sua trajetória.

Para o assessor técnico do TdH Brasil, Josiberto Sousa, não essencializar significa romper com estigmas e compreender que “o abuso pertence ao passado e não ao presente”. A perspectiva, segundo ele, exige um acolhimento não estigmatizante e um ambiente seguro para que o adolescente possa refletir e assumir responsabilidades.

Na prática, esse olhar exige dos profissionais atenção ao contexto e ao que nem sempre é verbalizado pelos jovens. O psicólogo Pedro Alisson destaca que alguns adolescentes que apresentam comportamentos violentos podem ter aprendido essa como uma forma de expressar o que pensam e sentem.

“Da mesma forma como ele aprendeu a ser violento nas suas relações, também pode aprender a ser respeitoso”, afirma. Para o psicólogo, reconhecer essa possibilidade de transformação é fundamental, especialmente diante de adolescentes que ainda estão em processo de desenvolvimento.

Diálogo em vez de aulas

Os grupos reflexivos não são apresentados como terapia, aula ou medida de justiça restaurativa. A metodologia trabalha de forma horizontal, utilizando perguntas, provocações e dinâmicas para estimular os adolescentes a questionarem suas próprias crenças e comportamentos.

“Não se trata de dar aulas ou ensinar ‘boas maneiras’, nem de impor interpretações”, explica Josiberto. O facilitador atua como alguém que provoca a reflexão e estimula a construção coletiva.

Pedro Alisson acrescenta que essa postura exige que o profissional também deixe de lado uma visão excessivamente adultocêntrica. “Percebê-los como sujeitos autônomos e protagonistas das próprias histórias ajuda o facilitador a deixar seus a priori de lado”, afirma.

Como funciona

Os grupos reúnem de seis a 12 adolescentes, entre 12 e 18 anos incompletos, em ciclos de seis a dez encontros semanais, com duração aproximada de 90 minutos. A facilitação é realizada preferencialmente por um homem e uma mulher.

Entre os temas trabalhados estão masculinidades, relações de poder e controle, gestão emocional, empatia, sexualidade, consentimento, relações saudáveis, prevenção de recaídas e projeto de vida.

O processo começa com uma entrevista individual e sigilosa e segue com os encontros reflexivos. Ao longo da jornada, busca-se avançar da negação e da postura defensiva para uma compreensão mais crítica sobre as próprias ações.

Segundo Josiberto, esse percurso envolve acolhimento, confiança, desenvolvimento da empatia e compreensão dos impactos da violência, até chegar à construção de um novo projeto de vida.

Pedro destaca que essa transformação ainda é um desafio, mas já pode ser percebida na experiência dos grupos. “Aos poucos eles vão desnaturalizando as violências, questionando os próprios comportamentos”, relata. Para ele, perceber que também podem ocupar o lugar de quem violenta o outro é um passo para a quebra do ciclo da violência.

A cartilha apresenta ainda instrumentos para apoiar os profissionais, como entrevista inicial, ficha de planejamento, contrato de convivência e relatório pós-encontro. A publicação não pretende ser uma metodologia definitiva, mas uma sistematização inicial da experiência do Projeto “Elos de Proteção”, aberta ao diálogo e ao aprimoramento.

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